Planejamento garante resultados no trigo tropical
O trigo em ambiente tropical é cultivado tanto em sistema irrigado quanto em sequeiro. A escolha do produtor vai depender do tamanho do investimento e do sistema de produção onde o trigo será inserido. Em qualquer situação, o melhor retorno na cultura depende de planejamento.
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De acordo com o pesquisador da Embrapa Trigo, Jorge Chagas, para alcançar os melhores resultados com a triticultura em ambiente tropical é preciso começar o planejamento antes mesmo da implantação da lavoura: “Onde eu vou plantar? – solo, altitude, clima, época. Quais são os insumos necessário? – sementes, defensivos, adubação, água. Previsão de colheita – maquinário, armazém. Para quem eu vou vender? – qualidade, logística. Essas são apenas algumas das diversas questões que o produtor precisa responder antes mesmo de começar a lavoura de trigo”. Ele lembra que é importante considerar o sistema de rotação de culturas da propriedade: “Qual cultura antecede o trigo? A colheita da soja ou do milho precisa encaixar no calendário de semeadura do trigo. Se a área estava sob cultivo de hortaliças, é possível aproveitar o residual de adubação”.
A área apta ao cultivo de trigo em ambiente tropical, nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, tem crescido gradualmente no Brasil nos estados de SP, GO, MG, MS, BA e no DF. Em 2018, a área com trigo tropical era de 200 mil hectares (ha) e, em 2025, chegou a 360 mil ha.

Figura: Balanço hídrico característico da região dos cerrados do Brasil estimado com base na média histórica.
Na produção de sequeiro, a média de produtividade do trigo é de 40 sacos por hectare (sc/ha), mas já existem cultivares com potencial superior a 70 sc/ha. “O trigo de sequeiro aproveita o final da época chuvosa no Cerrado, com semeadura nos meses de março e abril. É um trigo de baixo investimento num momento em que não existem muitas alternativas de cultivo na região, mas o risco de seca do desenvolvimento ao enchimento de grãos é alto”, conta Jorge Chagas.
É de olho nesta janela de oportunidades que a produtora Ligia Miguel passou a investir no trigo de sequeiro. A família Miguel administra a Sementes Agromil, em Sacramento/MG, onde multiplica sementes de trigo e soja. “Apostamos no trigo há mais de uma década. É uma cultura delicada para trabalhar, principalmente em função do regime de chuvas, mas precisávamos de alternativas para rotacionar com a soja e o trigo tem se mostrado uma excelente opção”, conta a produtora rural.
Na Sementes Agromil a cultivar BRS 264 sempre foi a aposta para cultivo em sequeiro. Em 2025, foram cultivados 1.100 hectares com BRS 264, mas a chuva parou em abril, resultando em uma produtividade em torno de 45 sacos por hectare (sc/ha), enquanto no campo experimental para validação de cultivares, com BRS Savana a média de rendimentos ficou em 67 sc/ha. “Na cultivar BRS 264 teremos problemas com brusone em semeaduras antes de abril, enquanto que com o BRS Savana a semeadura pode ser antecipada, aproveitando melhor o período de chuvas na região”, conta o engenheiro agrônomo da Sementes Agromil, Rodolfo Nunes Rocha.
Alto potencial no trigo irrigado
Enquanto no trigo de sequeiro recomenda-se uma lavoura de baixo custo frente à ameaça da escassez das chuvas, o trigo irrigado apresenta média de rendimentos entre 115 a 125 sc/ha. Contudo, apesar do baixo risco, a produção de trigo irrigado exige alto investimento e boa disponibilidade de água para manter os pivôs funcionando.
Na Fazenda Deusa das Águas, em Alto Paraíso/GO, a área de 215 hectares com trigo irrigado surpreendeu. A média de produtividade do trigo BRS 264 superou os 139 sc/ha, resultado repetido em dois pivôs: pivô 1 – com 88 ha e produtividade de 139,68 sc/ha; pivô 2 – com 127 ha produziu 139,45 sc/ha. Conforme o consultor da AgroSistemas, Volmir Antônio Fávero, mesmo com custo de produção próximo a 80 sc/ha, foi possível assegurar o retorno da lavoura: “Os principais custos do trigo irrigado estão na energia elétrica e no aporte de nitrogênio. O trigo responde quanto tem água e adubação nitrogenada”. Segundo ele, os projetos de consultoria para trigo irrigado estabelecem como meta 120 sc/ha, mas rendimentos acima de 100 sc/ha já são considerados positivos no retorno financeiro da lavoura. “Também trabalhamos com trigo de sequeiro, mais voltado à safrinha de baixo investimento, principalmente quando não dá para plantar mais o milho”, esclarece Fávero.
Proprietário da Fazenda Deusa das Águas, o produtor José Renato Maichaki conta que cultiva BRS 264 há nove anos. “Para evitar problemas com brusone, preciso plantar o trigo depois de 15 de maio. É uma estratégia que, além de evitar doenças, também garantiu a produtividade no último ano”.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Júlio Albrech, o período de 5 a 20 de maio é a época ideal de semeadura do trigo irrigado na região: “Especialmente no caso da BRS 264, que tem o ciclo precoce, se o produtor plantar antes, além de aumentar os riscos com brusone, ainda pode acelerar o desenvolvimento das plantas, comprometendo o rendimento e a qualidade dos grãos. Se plantar após o dia 20, haverá o risco de temperaturas elevadas durante o enchimento dos grãos e chuvas na colheita. Assim, é preciso respeitar o calendário indicado pelo zoneamento agrícola”.
Para alcançar os melhores resultados na produção de trigo tropical, o pesquisador da Embrapa Trigo, Jorge Chagas, recomenda planejamento: “Como o Cerrado não é uma região tradicional de cultivo de trigo, o produtor ainda pode encontrar alguma dificuldade para adquirir insumos, como sementes da cultivar desejada ou defensivos que ao longo da safra podem não ser facilmente encontrados. E, como a escolha da cultivar vai implicar numa série de demandas no manejo, é preciso planejar muito antes do período de semeadura para garantir a correta condução da lavoura”, conclui o pesquisador.
Para saber mais sobre o cultivo de trigo tropical, assista a videoaula “Práticas de implantação e manejo de trigo no Cerrado”, com o pesquisador Jorge Chagas.
Joseani Mesquita Antunes (MTb 9693/RS)
Embrapa Trigo