Escassez de mão de obra na construção civil é tema de debate na Fiesp
Setor entende que investimento em qualificação, inovação e a promoção de mudanças na legislação podem atrair novos trabalhadores e manter a produtividade
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A fim de discutir estratégias e caminhos que levem à redução da escassez de mão de obra qualificada na indústria da construção, a Fiesp realizou na quarta-feira (30/7) reunião conjunta do Conselho Superior de Relações do Trabalho (Cort) e do Conselho Superior da Indústria da Construção (Consic).
O encontro, conduzido pelo presidente do Consic, Eduardo Capobianco, e pela presidente do do Cort, Maria Cristina Mattioli, reuniu especialistas, gestores públicos e representantes do setor produtivo.
De acordo com a diretora da Escola Senai “Orlando Laviero Ferraiuolo”, Camila Pimenta, 94% das construtoras relatam dificuldades para encontrar profissionais qualificados, o que tem levado 76% delas a revisar os cronogramas de obra.
Ela afirmou que “60% dos trabalhadores da construção civil nunca realizaram cursos de qualificação formal, mas 71% demonstraram interesse em participar de capacitações”, conforme apontam dados de pesquisa da Câmara Brasileira Industria da Construção Civil (CBIC).
A capacitação de mão de obra, especialmente na modalidade Aprendizagem Industrial, é o coração do Senai-SP. Voltado a jovens de 17 a 24 anos, o programa de formação tem carga de 800 horas, que alia teoria e prática em empresas.
Outro programa citado pela gerente Camila é o Programa de Qualificação em Canteiro de Obras, com cursos de curta duração aplicados diretamente nos locais de trabalho. “Ambos oferecem formação gratuita e de qualidade, além de oportunidades reais de inserção e desenvolvimento na carreira”, frisou.
Qualificar os mais jovens é uma necessidade urgente, dado o envelhecimento da força de trabalho no país. “Em menos de uma década, a idade média dos operários saltou de 38 para 41 anos. Ao mesmo tempo, há baixa presença feminina, com apenas 10% da mão de obra”, destacou Camila.
Ela ainda observou que “o jovem representa 38,5% das novas vagas criadas desde 2020, mas essas vagas estão concentradas em funções de baixa qualificação”. O desafio é tornar o setor mais atraente e estruturado para receber essa nova geração.
Tendência global – Já o diretor de Gente do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), David de Oliveira Fratel, destacou que a crise de mão de obra não é um fenômeno isolado do Brasil, mas um reflexo de tendências demográficas globais.
“Não vamos conseguir a fartura de mão de obra que existia lá atrás, até por causa do fator demográfico. Mas precisamos inovar para tentar atrair mais jovens para o setor”, afirmou. Fratel acrescentou que, para ele, a saída está na industrialização de processos, melhoria da produtividade e qualificação técnica de novos trabalhadores.
Na esfera pública, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Jorge Lima, defendeu que é preciso “olhar para as causas” do problema e não apenas para os sintomas.
Nesse contexto, uma das iniciativas recentes do governo estadual é o programa Trampolim, criado para conectar jovens em busca do primeiro emprego a oportunidades de capacitação e inserção no mercado de trabalho.
O programa reúne, em uma plataforma gratuita, vagas de emprego, cursos de qualificação, ferramentas de orientação de carreira e apoio para quem busca se recolocar ou crescer profissionalmente.
As empresas participantes poderão definir os perfis desejados, divulgar vagas gratuitamente e colaborar na criação de trilhas formativas personalizadas, garantindo uma conexão mais eficaz com candidatos qualificados.
“Essa é a melhor ferramenta que nós temos para congregar todos os interesses: tanto para quem está frequentando os cursos gratuitos, como para quem quer formar mão de obra ou empregar”, afirmou Lima.
Já no âmbito municipal, o secretário Rodrigo Goulart destacou os esforços da capital paulista, com a criação de quase 840 mil novas empresas na atual gestão.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (SintraCon-SP), Antônio Ramalho, ressaltou a importância da inclusão das mulheres no setor e destacou ações da entidade, como o projeto Mulheres Empreendedoras na Construção, que já impactou social e economicamente milhares de mulheres.
“A importância da mulher empreendedora passa pela necessidade de mão de obra do setor e pela autonomia financeira e melhoria da vida familiar”, declarou.
Outro ponto crítico debatido durante a reunião foi a rigidez da legislação trabalhista no que diz respeito à Aprendizagem. Rodrigo Giarola, coordenador do Conselho Jurídico do SindusCon-SP, e a advogada Andrea Bucharles defenderam mudanças no Decreto 6.481/2008, que atualmente impede menores de 18 anos de atuarem em atividades fins da construção civil.
“A formação de novos talentos não é apenas uma obrigação legal, mas uma necessidade estratégica”, enfatizaram, propondo a criação de programas de aprendizagem específicos e seguros para jovens entre 16 e 17 anos.
Além da legislação, questões como o custo da formalização e a baixa produtividade também foram apontadas como entraves. Segundo os especialistas, a elevada carga sobre a folha de pagamento e a dificuldade em implantar modelos de remuneração por produtividade contribuem para a informalidade e, consequentemente, para a estagnação do setor.
A proposta defendida por representantes da indústria é criar mecanismos que recompensem diretamente o esforço, estimulem a formalização e tornem o emprego mais atrativo e sustentável.
Por fim, o gerente do Sinduscon-SP, David Fratel, lembrou que a despeito de todo o cenário que se apresenta, “a indústria deve se organizar para viabilizar empreendimentos em um cenário de escassez de mão de obra”.